... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Mulheres que não esquecem suas dores...

"A dor da gente, não sai no jornal" Chico Buarque




Pela manhã recebi uma cliente num caso de divórcio. Uma bela mulher de 50 anos, porém com marcas evidentes de um sofrimento insuportável. Ouvir toda àquela história de ruína de um casamento de 24 anos, com riquezas de detalhes, me remeteu a minha própria dor da separação. Foi me dando um nó na garganta e principalmente, pela racionalização diante do caos emocional e de todas as consequências futuras que estavam por vir.

A consulta foi pesada e por mais que a encorajasse às atitudes necessárias, ela me parecia ainda não se dar conta do rompimento, a 'ficha não caiu' como usam na gíria a falta de percepção de que o marido não a amava mais e era um mau-caráter. Pois, da mesma forma que contava todo o sofrimento vivido, ainda pairava em sua fala uma esperança de que ele poderia voltar. Infelizmente, eu não tinha o poder de fazê-la enxergar a realidade porque ela não queria saber. Apenas, estava alí por imposição dos filhos.

Na hora do almoço, fui ao encontro de uma grande amiga que me esperava em sua casa. Quando cheguei, para minha surpresa, notei um semblante triste que foi cedendo lugar a uma alegria, através da minha presença e das borbulhas do espumante gelado dançando na taça de cristal. A minha manhã fora estressante e com recordações de dores latentes, então cedi ao escape do espumante para aliviar minhas lembranças desagradáveis.

O dia começa com duas mulheres cheias de emoções, uma com mágoas presentes e a outra com suas mágoas passadas, e se estende com a terceira, também na mesma situação da segunda. Então, dentre preenchimentos das taças vamos recordando nossas tristezas do passado até não suportarmos mais tantas dores sofridas. Mas, o álcool parece que vai amenizando nossas histórias revividas do âmago e das lágrimas escapulidas sem querer.

Já a noite, resolvo voltar para casa, depois tantas conversas e desabafos que me deixaram extenuada e vou cambaleante no trajeto, quando me deparo com outra amiga totalmente embriagada com o rosto inchado de choro, num bar nas proximidades. É a quarta mulher abandonada e cheia de dores pulsantes. De braços abertos ela me chama e com um abraço apertado se debulha em lágrimas me confidenciando ao pé do ouvido: “Essa dor nunca vai passar !”.

Sentei-me à mesa, transcorrendo pela madrugada, embalada pela fuga da realidade ao som das nossas gargalhadas catárticas alternadas ao pranto do sofrimento, cada uma carregando sua dor e anestesiando as angústias. Eis que, a dor não passa, nunca !

Numa pausa para o jantar...


'Eu estava cansada, muito cansada, com tantos problemas para administrar que não vi o quanto ele havia crescido e tentava alçar seu vôo sozinho em busca de novos afetos. 

Olhei aquele rosto com os traços do pai, mas ainda restava um pouco do meu brilho que antes era intenso e, agora, pouco a pouco desbotara pelas durezas daqueles tempos sombrios. Eu não imaginava que as dores do vazio paterno fossem o marcar tanto. 

Preocupada em defendê-lo das amarguras não vi que somente ele pode resolver essa falta, eis que não adiantava ser tão presente no lugar que cabe ao outro.

Seu olhar que antes era cheio de alegria se fixava agora no vácuo distante e seus lábios com inúmeras estórias a compartilhar se calava. Apenas, limitando-se a respostas curtas sem delongas. 

Tais efeitos, de um sofrimento tão desnecessário me irrigavam o rancor de vê-lo tão maltratado pelos efeitos da nossa solidão. Ele amadurecera pela dor e expressava suas angústias na desesperança.' 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Apenas o silêncio...


"Quão melhor é o silêncio; a xícara de café, a mesa. Quão melhor é sentar-me sozinho como a solitária ave marinha que abre suas asas sobre a estaca. Deixem-me ficar sentado aqui para sempre com coisas nuas, esta xícara de café, esta faca, este garfo, coisas em si, eu mesmo sendo eu mesmo. Não venham preocupar-me com suas alusões a que é tempo de fechar a casa e partir. Eu daria de boa vontade todo o meu dinheiro para que vocês não me perturbassem, mas me deixassem ficar aqui sentado, para sempre, silencioso e só." Virginia Woolf 



Hoje, talvez por vários dias num tempo abstrato, não quero trabalhar, não quero falar e também não quero ouvir. O que preciso é ficar quieta e só, como uma ostra hermética às ondas que a tentam carregar. 

Não quero ver ninguém e ainda, não quero ser vista ou lembrada. Apenas, mergulhada em minhas angústias que me tomam tempo de demais para viver inteirada de tudo.

Antes, pensei que as informações mesmo que doloridas pudessem me libertar. Mas, não. Elas apenas servem para me arrastar cada vez mais ao sofrimento. 

Então, basta ! Deixem que eu tente pelo menos me adequar as tamanhas dores que sofro. Talvez, estas eu ainda consiga aguentar e quem sabe um dia me recuperar. 

Todas as outras dores que chegam me parece ser pesadas demais para suportar. E, me fazem perder a vontade da vida. Por enquanto, as que carrego permanecem junto com as lembranças de um passado não tão longínquo, em que vivi intensamente. 

 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Calada...


"Ofereça a outra face, ou seja, ficar calada diante da injustiça ou da desconsideração, é uma atitude a ser avaliada com muito cuidado. É uma coisa usar a resistência passiva como arma política da forma que Gandhi ensinou multidões a fazer; já é bem diferente o fato de a mulher ser incentivada ou forçada a se calar para poder sobreviver a uma situação insuportável de poder corrupto ou injusto na família, na comunidade ou no mundo. As mulheres nesse caso são isoladas da natureza selvagem, e seu silêncio não é de serenidade, mas representa uma enorme defesa para não sofrer violência. É um erro que os outros considerem que, só porque a mulher está calada, isso quer dizer que ela aprova a vida que leva.” Clarissa Pinkola Estes in Mulheres que Correm Com os Lobos: Mitos Histórias 
É no meu sofrimento que você está. 


Ocupando por inteiro o meu espírito cansado.
Se impondo sem dar espaço para as alegrias.
E, assim me sufoca toda a felicidade.

"Há sempre algo de ausente que me atormenta."
Camille Claudel



O silêncio da ausência...

"Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante; e as casas, os caminhos, as avenidas são fugitivos, infelizmente, como os anos." (Marcel Proust in 'Em busca do tempo perdido - no caminho de Swann')





Nunca mais o tilintar das chaves no início da noite soou aos meus ouvidos, pois Marcelo se dispersou em outros caminhos. Talvez, seja ele agora que anseia o som das chaves a espera de alguém. 

Dos novos sons compostos em músicas lançadas não eram mais compartilhadas entre nós. As misturas de palavras soadas na ansiedade dos debates não eram mais ouvidas. Os toques matinais e vespertinos do telefone foram silenciados. Até mesmo, os sons da concorrência desleal do jornalismo televisivo com as conversas no jantar não eram mais contestadas.

Nunca mais ouvi os sons da respiração ofegante em nossa alcova, dos beijos lascivos estalados, das risadas debochadas, do batuque das panelas no preparo das refeições, do quebrar da louça na pia ou do chamado carinhoso do meu apelido. 

Nem mesmo, os sons agonizantes dos roncos que me despertava dos sonhos, dos gritos coléricos de raiva ou dos escarros pela manhã havia mais. Apenas, uma lacuna jamais preenchida que me angustia o vazio. 

Assim, se deu os silêncios injustos e gritos mudos que me sufocam a alma.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O engano...

"Muito poucos são os que não se deixam cair em nenhuma das reais tentações do aparente...  Sexo, poder e dinheiro são promessas vãs. Chegam a conjugar-se a fim de escravizar mais eficazmente quem parece amar a sua própria desgraça."  
José Luís Nunes Martins



Conhecia suas limitações, respeitava suas inseguranças, aceitava seus defeitos, tolerava suas raivas, apoiava suas escolhas e decisões, mesmo as não consultadas. Assim, Patrícia foi leal e cúmplice do seu parceiro.

Defendia-o com unhas e dentes de todas as injúrias impedindo qualquer humilhação, até mesmo pelos afins e parentes. Muito embora, desconhecesse a vida financeira de Julio, da qual não lhe era permitida participação, mas em todos os momentos ruins dos fracassos, lá estava ela, fiel sem titubear. 

Da vida social do companheiro, jamais pode participar dos eventos e quando inevitável, nunca era apresentada como tal. Assim, Patrícia viveu à parte, como se nada fosse de Julio.

Cuidadosa e admirada pelo o homem que amava, limpava sua pele, cortava suas unhas e comprava-lhe as roupas. Sempre preocupada com o bem-estar do parceiro. 

Um dia, ele se foi com a desculpa de quem precisava de nova parceira que o cuidasse melhor. Embora, partilhasse de todos os espaços que fora negado à Patricia, Julio aparenta maus-tratos. Pois, é visível que virou um coadjuvante e rasteja atrás das migalhas que lhe sobram.

sábado, 15 de novembro de 2014

O perverso narcisista jamais assume suas culpas... Ele não tem sentimentos.

"Costumam articular mentiras para convencê-lo de que a sua versão da realidade não é a certa. Dizem que o que você fala ou percebe não é bem assim, que é imaginação sua e quando você reclama de algo sobre o tratamento ou sobre a fala desestabilizadora, a tática é a desqualificação imediata, avisando-o de que não se recordam de terem dito algo abusivo ou lesivo. Esse tipo de estratégia de fragmentação do psiquismo é uma forma altamente eficaz de abuso emocional porque leva a vítima a achar que está ficando louca, posto que suas percepções de realidade são constantemente negadas, e pior ainda, quando a pessoa que as nega é o próprio cuidador, a pessoa que supostamente deveria oferecer referências sobre e para a vida. Esses indivíduos são caracterizados como narcisistas perversos e nesses casos continuam "perfeitos" e você é a sombra, ou seja, o louco." Silvia Malamud


Viver ao lado de um narcisista perverso foi o que levou Karina a extrema baixa estima até adoecer e quase enlouquecer. Pois, depois de usá-la e consumi-la até a última gota, como um vampiro, Lauro se foi sem olhar para trás, deixando apenas as trevas sem o menor pudor ou remorso. Até porque narcisistas perversos não têm sentimentos algum por suas vítimas. 

São predadores e egoístas, capazes de arruinar suas parceiras sem qualquer piedade porque jamais se colocam no lugar dos outros. Pelo contrário, sua vontade é apenas tirar vantagens sobre os outros. 

Arrogante e sempre dono da verdade, mesmo quando desmascarado numa mentira, não se intimida, inverte de pronto a situação e se faz passar por vítima. Assim, consegue levar à própria vítima a uma situação de estresse psicológico, na qual a mesma se sente culpada.

Num episódio de desespero, por ser acusada injustamente mesmo depois de descobrir todas as mentiras, Karina arrancou os cabelos. E, mesmo diante da cena humilhante daquela mulher completamente torturada pela manipulação engendrada, Lauro jamais assumiu suas mentiras e como não era capaz de sentir a dor que provocara à mulher deu-lhe as costas, como se nada houvesse acontecido. Apenas, reforçou que ela estava louca, como sempre a acusava para justificar sua perversidade.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Mulheres que sofrem com seus Homens...


"Uma das violências mais perversas que possa existir para Mulher é a psicológica e, esta, está no seio familiar acarretando feridas que jamais poderão ser cicatrizadas."  



Foram tantas as violências sofridas pelo próprio companheiro que Amanda jamais conseguiu se curar. Sendo destituída de sua dignidade e destruída em sua auto-estima. Desta forma, suas feridas permanecem abertas. 

A Violência Moral, geralmente se dava por insegurança do próprio parceiro pelo ciúme e possessividade, na qual consiste em injúrias, calúnias e difamação. Muitas vezes, Amanda foi injuriada pelas acusações fantasiosas de que tinha algum relacionamento extra-conjugal ou estava apaixonada por outrem. E, como se não bastasse, tais acusações eram levadas às calúnias e difamações perante familiares e amigos. Mesmo, ela nunca tendo conduta desta natureza.

Na Violência Sexual, ela era assediada constantemente mesmo quando não desejava realizar o ato sexual por qualquer motivo de cansaço de um dia de trabalho, preocupação de um problema, desinteresse dado a alguma grosseria ou injúria pelo companheiro. Muitas vezes, culminava em cobranças às altas horas da madrugada com ameaças de procurar por outras mulheres para fazer sexo, como se Amanda fosse obrigada a satisfazê-lo sempre que este desejasse.

Não obstante, o assédio sexual envolvia ainda, intimidação de perversões sempre com a desculpa de que ela não o amava se não as realizassem e com ameaças de procurar outras parceiras.

Neste processo de violências, moral, sexual, vem a violência psicológica em que as consequências são irreparáveis, causando-lhe dano emocional e prejuízo ao seu desenvolvimento psíquico com marcas por toda a vida que culminaram em uma depressão profunda e dificuldade de se relacionar afetivamente novamente. Além, da impossibilidade de trabalhar.  

A agressão se estende também, aos filhos, quando este homem nega participação na criação dos mesmos, abandonando-os afetivamente. Deixando a encargo exclusivo de Amanda, tanto as tomadas de decisões como os cuidados em momentos difíceis de enfermidades.

Diante de todas as constantes cobranças e ameaças, Amanda ainda era impedida veladamente de exercer a plenitude de sua profissão, quando falsamente o companheiro demonstrava incentivá-la, mas era inquirida porque demorava muitas horas no ambiente de trabalho sem muitos clientes para atender. Desta forma, ela vai se anulando e perdendo a auto-estima, sendo alienada num aprisionamento sem qualquer perspectiva de crescimento profissional. 

Por conseguinte, esta mulher desenvolveu a síndrome de pânico e vive em constante temor pelo futuro incerto quanto a sua sobrevivência. Restando incapacitada de exercer suas próprias atividades. Aí, se instaura a Violência Patrimonial, em que o companheiro a abandona e começa a levar uma vida financeira bastante confortável, diferentemente da que proporciona antes à família. Justamente, com outra parceira que era fruto de seu relacionamento extra-conjugal, e é cúmplice juntamente com o agressor, assediando moralmente Amanda. Assim, qualquer conduta que demonstre a retenção e subtração de bens totais ou parciais que deveriam ser comunicados à companheira, é considerada violência patrimonial. 

Contudo, Amanda foi privada de usufruir o conforto da propriedade dos bens que estão sob a posse única do parceiro, apartamento, automóvel, viagens e lazer. Sofrendo o desamparo financeiro.  

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A Mulher Despejada...

"Se vivermos durante muito tempo, descobrimos que todas as vitórias, um dia, se transformam em derrotas." Simone de Beauvoir



Fazia um ano que havia perdido meu lar e poucas foram as vezes que retornava àquele bairro em que vivi os muitos anos felizes. Agora, estou caminhando pelas ruas que tanto andei ao destino do meu lar. É primavera e as flores estão a colorir os caminhos quentes pelos raios que transpassam as árvores que tanto me sentei aos bancos da praça, enquanto meu filho corria crescendo rapidamente a cada ano. Por tantas vezes o esperei no retorno da escola com aquele sorriso estampado no rosto ao avistar-me. Os abraços apertados, a vigília a pouca distancia das suas brincadeiras com as outras crianças, os sorvetes negociados e a hora de voltarmos para o almoço ou o jantar. A minha volta do trabalho, quando era ele que me avistava de longe e corria ao meu encontro, o pai que estacionava o carro e vinha ao nosso encontro... Todos esses momentos ficaram num passado longínquo que jamais voltará, a não ser na saudade.

Sinto um nó na garganta que dá vontade de chorar, mas respiro fundo e sigo adiante deixando para trás tudo já vivido. Aperto o passo e vou em outra direção com todas as lembranças a me perseguir, numa angústia misturada a raiva de ter perdido meu chão, minhas histórias e aquele tempo que agora, pertence somente à mim na nostalgia. É impossível não ressentir-me por ter sido obrigada a não poder compartilhar mais daquela morada.

Vislumbro alguns conhecidos de longe e mudo de calçada fingindo que não os vejo para evitar o encontro e cumprimentos. Na verdade estou tão derrotada que não há nada de bom para conversar. Assim, como não quero invejá-los por não conseguir lidar com meu despejo. A esta altura o pranto é inevitável e foge ao controle. Não consigo chegar a agência bancária e resolver as pendências que estava disposta a solucionar. Sento-me em outro banco da rua pelo esgotamento emocional e fico absorta pela melancolia que me devora os pensamentos.

Penso em ir logo embora dali, mas não tenho forças para me levantar e sair. Não sei quanto tempo fiquei neste estado. Quando de repente, vejo do outro lado da rua alguém do meu passado parado me olhando e vindo em minha direção, mais uma vez finjo não ver e salto rapidamente em busca de algum abrigo que me tire dali. Porém, mal sucedida sou alcançada e não consigo enxugar minha lágrimas a tempo de disfarçar minha tristeza. Entretanto, sou abraçada e acalentada soluçando de vergonha, num desabafo silencioso. 

Sou levada sem resistência, mas completamente muda pelo braço, sem me importar com o pranto jorrado. Sento-me com ele num café que pacientemente me observa com um olhar fixo e terno. Bebo um copo d'água que vai lavando aos poucos minha angústia.

Continuo silente e penso numa maneira de sair sem ser vista ou impedida. Detesto esta minha fragilidade e principalmente perante alguém que testemunha meu descontrole. 

Agonia e solidão de Janaína...



A noite vinha a Lua que a impedia de sonhar.
O Sol não brilhava mais em seus caminhos.
Sua tez branca e lívida trazia o vazio das cores.

Janaína estava doente, muito doente.
Mas, tentava resistir as dores que aprisionavam-na à solidão.
Nada mais havia a fazer.
Senão, suportar os fracassos das perdas irreparáveis.

Tiraram-lhe a dignidade e deixaram-na à míngua de sentimentos.
Regozijavam sem culpa ou remorso.
Enquanto, Janaína adoecia.

Levaram o Sol entre estradas e mares.
À Janaína restou apenas a Lua.
Que a observava de longe sem acolhimento.

Dias e noites, Janaína agonizava em seu leito.
Mergulhada dentre lágrimas e soluços.
Sua dor, jamais foi sentida por seus algozes. 

domingo, 5 de outubro de 2014

Busco minha solidão para alcançar minha libertação...


“A raiva residual de antigas feridas pode ser comparada aos efeitos traumáticos de um ferimento por estilhaços. A pessoa pode conseguir catar praticamente todos os pedaços de metal estilhaçado do míssil, mas os caquinhos menores permanecem. Seria de se pensar que, se a maioria foi retirada, tudo bem. Mas não é assim. Em certas ocasiões, esse caquinhos minúsculos se torcem e retorcem, causando uma dor semelhante à do ferimento original (o ferver da raiva) mais uma vez. Não é, porém, a imensa raiva original que provoca esse jorro, mas são ínfimas partículas dela, elementos irritantes deixados na psique que nunca são completamente eliminados. Eles causam uma dor que é quase tão intensa quanto a do ferimento original. É assim que a pessoa se retesa, temendo o golpe violento da dor e, de fato, gerando mais dor. Eles se envolvem em manobras drásticas em três frentes: uma que tenta conter o evento objetivo; uma que tenta conter a dor que se espalha, a partir do antigo ferimento interno; e uma terceira que tenta garantir a segurança da sua posição mergulhando de cabeça numa posição psicológica de defesa. É demais pedir a um único indivíduo que enfrente o equivalente a um bando de três e tente nocautear todos eles ao mesmo tempo. É por isso que é imperativo parar no meio de tudo isso, recuar e procurar a solidão. É demais tentar lutar e lidar ao mesmo tempo com a sensação de que se foi atingido nas vísceras.” Clarissa Pinkola Estes in Mulheres que Correm Com os Lobos: Mitos Histórias 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Olhares penetrantes atravessam meu caminho, sem que eu os vissem...

"... Enquanto estiveres vivo, sente-te vivo. Se sentes saudades do que fazias, torna a fazê-lo. Não vivas de fotografias amareladas. Continua, a pesar de todos esperarem que abandones. Não deixes que se enferruje o ferro que há em você. Faz com que em lugar de pena, te respeitem. Quando pelos anos não consigas correr, trota. Quando não possas trotar, caminha. Quando não possas caminhar, usa bengala. Mas nunca te detenhas."

Camille Claudel



Com dores pulsantes, vou seguindo adiante em passos lentos, às vezes me arrastando; outras vezes me apoiando em bengalas. Mas, sigo adiante, mesmo claudicante  e me despedaçando em sentimentos.

Tropecei com um belo jovem com um triste olhar de maresia que de repente, tentou seguir meu rumo, mudo pisando mansinho sobre meus cacos que são tantos que nem mesmo os catando com cuidado conseguiu evitar de se ferir.

E, assim na intensidade das minhas angústias vou destruindo os incautos que tentam me deter na ilusão de uma paixão... 

 

Lancei-me no branco das telas transformando sentimentos em arte...

''Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.'' Frida Kahlo



Era como se  não coubesse mais dentro de mim tantos sentimentos a me sufocar. Então, me despi da própria monocromia simétrica daquele estado vegetativo de vida e passei a  me jorrar em cores. Retratava nas telas minhas angústias como um auto-retrato inconsciente das minhas dores pulsantes, porém invisíveis aos olhos dos outros. E, eis que me deparo com mundo repleto de tons esfuziantes, em várias mulheres que possuo no íntimo sob outros ângulos. 

São mulheres abandonadas na dor da rejeição que sangram solitárias, outras perdidas num turbilhão de sentimentos confusos que trazem a loucura, tem as que esperam a tempestade passar na ilusão da calmaria e há as destruídas pelas perdas sem qualquer esperança de futuro. Mas, todas estão vivas dentro de mim.

Tantas vezes, fui sabotada e injustiçada pelo falso juízo de valor alheio, que pouco sabia lidar com meu talento em cores ou em minhas emoções genuínas de uma mulher fiel aos princípios afetivos de apenas amar. Um amor leal que era capaz de adiar outros sonhos e se dar em intensidade.

Agora, na minha serenidade vejo que as telas retratam informações preciosas de momentos sofridos no âmago da minha solidão. Mas, que me trazem a libertação de tantas amarras do passado, do qual nada de rancor restou. Assim, decoro meu presente repleto de cores chamativas como forma de desenhar uma nova vida à vista. Se haverá algum futuro, não sei. Mas, somente me reconstruo com dignidade de enfrentar tantos fracassos que me adoeceram, embora sempre sonhando com a cura para resgatar toda alegria furtada.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Quantos Amores tens ? Agape, Eros ou Philia...

"Cuidado com àqueles que não têm amigos. Desconfie sempre pessoas que não conseguem manter vínculos profundos, como a amizade. Pois, a amizade é o amor incondicional." Claudine Garcy


Por tantas vezes,
Recorri à ti.
Minha Amiga.

Dentre lágrimas e angústias,
De todos os obstáculos 
Quase intransponíveis, 
Tu estavas lá...

Deste-me a mão 
Com teus pulsos sangrando;
Choraste minhas lágrimas amargas;
Acolheste-me em teu colo cansado;
Escutaste minhas lamúrias sem julgamento;
Jogaste-te ao fundo para me resgatar e,
Sentira toda minha dor...
  
E, mesmo sofrendo as dores 
Consegues rir, 
Gargalhar,
Ironizar o sofrimento insuportável
Porque és especial.

Apesar dos fracassos
No decorrer do sinuoso caminho, 
Amizade é o que me permite continuar. 
E, é por isso,
 Que sinto tanto amor. 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Aonde anda você ?

"Que saudade é o pior tormento, 
é pior do que o esquecimento, 
é pior do que se entrevar..."
Chico Buarque


A brisa fresca da manhã atravessa as frestas da janela, juntamente com os primeiros raios de sol a me despertar. O aroma do café me traz a lembrança de você, mas não há você para me trazer o café. Sinto-me tão só pela saudade de você, mas não há você para tirar minha solidão. 

Entediada pela primeiras horas matinais, estou vazia de você e sinto muito a sua falta. Lembranças dos nossos momentos me emocionam, trazendo a melancolia. Mal o dia começa e estou angustiada pela solidão de você. 

Absorta, caminho sem destino com você em pensamento. Aonde anda você ? Que com sua presença ausente me atormenta os sentidos, me deixam lacunas e me questionam os sentimentos. Amar a distância não é fácil. Adoece a alma de ansiedade e aumenta o vazio. Pois, quando você me esquece, não existo e mesmo assim, resisto em teimosia por não suportar a sua falta. 

sábado, 23 de agosto de 2014

Aos poucos nos tornamos estranhos...


“Começaram a se ver com menos frequência à medida que ela alargava seus domínios, e à medida que ele explorava os seus tratados de encontrar alívio para seus velhos padecimentos em outros corações desarvorados, e por fim se esqueceram sem dor.” Gabriel García Márquez em O Amor nos Tempos do Cólera


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Laços sem vínculos...


 "Onde não puderes amar, não te demoras."  
Frida Khalo


Homens trocam os vínculos familiares por aventuras sexuais, na expectativa de vivenciar uma relação sem os problemas cotidianos com o único objetivo de atender seus desejos sexuais. Assim, sem culpa ou remorso desfazem vínculos criando novos laços. 

Tais laços, podem começar pela internete, pelo local de trabalho, por um flerte ou por uma simples ocasião favorável e, vão embora sem a menor parcimônia desconstruindo vínculos. 

A família, já não é mais um valor de projeção na esfera masculina, muito embora hajam mulheres que almejem vínculos eternos, quando na verdade o casamento é somente um status quo de benefício masculino temporariamente. 

Numa fase da vida masculina o casamento lhe proporciona segurança afetiva para gerar filhos e agregar patrimônio, tendo a mulher como administradora de um lar, contribuinte econômica e facilidade sexual.

De contrapartida, Mulheres sublimam seus anseios e desejos através da família, na criação dos filhos e na inserção de vínculos mesmo que desgastados os laços afetivos. Muitas abdicam de grandes realizações e carreira profissional em troca da falsa estabilidade sentimental.

Com André não foi diferente, numa investida sexual trocou seu vínculo familiar em busca da satisfação individual, sem ao menos dar conta dos danos emocionais causados aos seus afins. Mulher e Filhos quedaram-se ao abandono e consequentemente adoecendo em depressão. Depois, vieram as dificuldades financeiras e mudança repentina de uma vida construída.

André passou a se relacionar e criar vínculos com uma família emprestada que não o aceita, mas o objetivo maior é apenas viver sexualmente ativo enquanto o tédio não vem. Anos triplicam em sua aparência, mas ele não percebe o quanto se enganou e prejudicou seus vínculos afetivos por laços voláteis.

Portanto, todo seu desejo de atenção exclusiva não fora preenchido, assim suas queixas de falta de atenção permanecem, pois o novo relacionamento não é capaz de preenchê-lo. Tampouco terá segurança afetiva, já que por impulso não mediu as consequências danosas de seu capricho primitivo.

domingo, 10 de agosto de 2014

Não me restou nada... Apenas, o desamparo e as dificuldades.

“Não me provoque, tenho armas escondidas... não me manipule, nasci para ser livre... não me engane, posso não resistir... não grite, tenho o péssimo hábito de revidar... não me magoe, meu coração já tem muitas mágoas.” Clarice Lispector



Enquanto, eu tentava me levantar dos golpes emocionais e das perdas financeiras, cujas dívidas me levavam ao desespero e me tirava o sono. Ele que me tirou tudo, minha juventude, minha posição social, minha carreira profissional, agora goza de todo o conforto que me priva...

Todos os anos que vivi ao seu lado contribuindo economicamente, enfrentado as crises e as dificuldades quando esteve à beira da falência, me privando muitas vezes de conforto, segurando as pontas e economizando, jamais pude desfrutar de tal conforto que ele agora tem.

Fiquei sem casa, sem automóvel, sem reservas... Como se bastasse, até fui despejada. Sendo obrigada a me adaptar a uma nova moradia desconfortável. Todos os dias amargo nas filas dos coletivos, a ida e a volta do trabalho. No mercado sou obrigada a devolver produtos por ultrapassar o apertado orçamento das compras, mesmo consumindo produtos mais baratos e promocionais. De contrapartida, ele tem casa, aonde sempre quis morar, tem outra casa de praia na região mais cara do estado, automóvel para se locomover, frequenta bons restaurantes, se veste com roupas de marca, além das viagens contumazes em esplêndidos hotéis. 

Lembro-me das inúmeras viagens a mim negadas, a não ser de raríssimas vezes que foram para lugares muito barato e, mesmo assim tão desgastantes, sempre com aborrecimentos por sua mesquinharia.

E, não se culpa ou tem o menor remorso, por tudo que me tirou e me causou. Muito pelo contrário, sua atual companheira não se refuta em expor toda a vida confortável que leva ao seu lado. Ela sempre faz questão de que eu tome ciência das vantagens. A última, foi uma viagem perante um dos lugares mais caros do nordeste.  

Agora, não me restou nada... Apenas, a lesão dos anos perdidos ao lado de alguém que planejou toda a minha derrota e, ainda compraz a minha dor.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Nós já fomos mais felizes...



De repente...
Àqueles olhos não continham mais o brilho.
Havia um evitar de olhar.
Algo secreto que o distanciou. 
Então, ele não me olhou com admiração.
Havia apenas um olhar de crítica. 
Eu já não estava mais nele.
Pois, ele não me via mais.
E, me censurou. 
Não pude conter sua ansiedade de me deixar.
Então, ele se foi.
Assim, estranho sem deixar o beijo. 


E, àqueles que renunciaram as aventuras pela estabilidade do amor foram mais felizes...


Acumulamos experiências vividas do decorrer das trocas sentimentais, mas com a maturidade procuramos a estabilidade do amor. O relacionamento construído de afinidades, cumplicidades, amizade e companheirismo.

Mesmo que a paixão se esvaia e a tentação culmine em busca desta euforia, através novos relacionamentos, chega certa idade que a troca de uma união estabilizada por uma nova paixão pode deixar marcas. Pois, nem sempre vale a pena o preço a se pagar. 

Obviamente, a paixão também vai se acabar e de repente nos damos conta que o amor construído ao longo do relacionamento de anos envolve projetos e planos que se estende aos laços familiares. 

E quantas dores poderiam ser evitadas se houvesse mais sensatez ? Será que uma paixão vale mais do que causar sofrimento aos afins ? 

sábado, 2 de agosto de 2014

Simplesmente Amar...


Era difícil amar em tempos sombrios, em que as sombras do passado longínquos permaneciam recentes...


Mas, o amor que se renova, apesar das dores da desilusão, está dentro de nós mesmas.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Ele não sabe ofertar amor e sim a dor...

"Quando você
Me esquece
Você faz questão
De não sentir
Para não
Sofrer"
Nely Nazareth



Triste pela negativa de aproximação de forma civilizada, já que a angústia da perda de vínculo afetivo era evidente e, por mais que eu tentasse a permanência da amizade pelos tantos anos juntos, chorei muito àquele episódio injusto de acusação imputada sem motivos.

Ademais, desde o impedimento em nos manter unidos pela interferência externa de intrusão fomos perdendo laços e nos tornamos estranhos. Era uma grande perda significativa, comprovando a mesquinhez de sentimentos, quiçá ingratidão. 

Desta forma, para preservar minha pouco auto-estima que restava, evitava contato direto, a não ser para tratar os interesses restantes. Então, toquei o botão do elevador e adentrei quando inesperadamente me deparei com ele. 

Seu semblante sempre pesado, a aparência quase que desconhecida pelas marcas pesadas do tempo e o cheiro mofado de esquecido... Senti uma mistura de pena com desprezo, pena pelo impedimento de manter nossa amizade e desprezo pela sua prepotência de me jugar inferior. 

Na verdade, ele nem merecia meus poucos sentimentos depois de tudo que me fizera. Mas, tenho tanto amor que posso ofertar o que se esbanja, enquanto ele tão vazio de sentimentos, jamais poderá se sentir amado e se presta a ocupar um lugar clandestino. 

Quem coloca os sentimentos dos outros acima do seu individualismo e pouco se importa em magoar, não sabe ofertar amor e sim a dor. São pessoas egoístas que acabam solitárias mergulhadas na própria vida vazia. Pois, somente as emoções preenchem-nos. 


domingo, 20 de julho de 2014

Pessoas saem e entram na minha vida, numa mistura de sentimentos em busca da minha reconstrução...


“... Na melancolia, as ocasiões que dão margens à doença vão em sua maior parte, além do caso nítido de uma perda por morte, incluindo as situações de desconsideração, desprezo ou desapontamento, que podem trazer para relação sentimentos oposto de amor e ódio..” Freud

Eram perdas tão significativas que minha estrutura emocional parecia sucumbir a qualquer momento numa profunda melancolia sem fim. Já não havia mais como resgatar meu ego, perdido em sentimentos rejeitados. Impossibilitando assim, minha tomada de auto-estima. 

Àquela melancolia, me estagnava retirando minha vitalidade. Anos se passavam como minutos, e eu me mantinha refém das perdas emocionais. Pois, cada perda levava um pedaço de mim mesma. E, foi assim, quando perdi meu casamento, estendido à família. As crianças nasciam e meus sentimentos não eram mais compartilhados. 

Parece que a dor da exclusão familiar se eternizaria... Mas, é preciso se reconstruir das perdas e a única forma possível é permitir a entrada de novos vínculos.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Então, você está infeliz e me culpa... ?



Se você é capaz de me odiar, mesmo depois da covarde apunhalada pelas costas que me fez agonizar até sucumbir minha auto-estima, é porque vive assombrado pelos fantasmas. 

Fazer o mal, magoar sem motivos, causar dor e sofrimento a quem sempre lhe foi leal será o seu eterno calvário nas sombras do inconsciente.

Sua infelicidade é a prova concreta de todas as injustiças cometidas à mim. Pois, ninguém em nenhum momento da sua vida foi capaz de lhe amar tanto como eu amei você. 

Nos momentos mais difíceis estive ao seu lado, lhe apoiando; sofri com os seus fracassos, sua ausência e jamais me omiti em lhe estender a mão. 

Assim, quando veio o sucesso, você me descartou e vive no esplendor da aquisição de bens, viagens, bons restaurantes, numa vida social que jamais me proporcionou. 

Ora ! Mesmo assim, não está feliz ? O que mais você pretende me arrancar ? A vida ?

A farsa da subjugação...

"Os termos masculino e feminino são usados simetricamente apenas como uma questão de formalidade. Na realidade, a relação dos dois sexos não é bem como a de dois pólos elétricos, pois o homem representa tanto o positivo e o neutro, como é indicado pelo uso comum de homem para designar seres humanos em geral; enquanto que a mulher aparece somente como o negativo, definido por critérios de limitação, sem reciprocidade. ... Está subentendido que o fato de ser um homem não é uma peculiaridade. Um homem está em seu direito sendo um homem, é a mulher que está errada." Simone de Beauvoir in "O segundo sexo" 



Mulheres por uma questão de subserviência e complexo de inferioridade acabam se transformando em rivais na conquista amorosa. Enquanto que os Homens em seu narcisismo fomentam tal rivalidade. Pois, quando a Mulher se impõe repudiando esse lugar subalterno, o Homem se descontrola por não conseguir dominá-la e, então declara uma verdadeira guerra nos meandros da relação. 

Não foi diferente com Ana, quando se posicionou em seu relacionamento exercendo livremente suas posições e repudiando controle de poder. Entretanto, como seu parceiro não conseguiu viver uma relação de igualdade acabou sucumbindo ao subterfúgio da traição, utilizando a poderosa arma da deslealdade. 

Sentindo-se inferiorizado pela impossibilidade de domínio da parceira, optou por outra mulher padronizada à subordinação, principalmente como aliada da guerra subterrânea para afastar qualquer ameaça de reconciliação com a ex-parceira.

Todas as mentiras plantadas e engendradas pela nova parceira, buscam desqualificar Ana, quando na verdade quem é alvo da desavença e desmerece confiança é o próprio parceiro. Já que, sempre que se sente ameaçado corre para outras mulheres. 

Habituado a não se sentir apto para ser amado, insiste mesmo depois de toda crueldade emocional desferida à sua ex-parceira, a magoá-la e maltratá-la. Demonstrando assim, seu recalque e insatisfação diante da falsa subserviência da nova parceira. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Complexo de inferioridade...

"As pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer." Jacques Lacan 



Olha para você !
Veja no que você se transformou.
Perdeu os olhos ternos.
Desbotou seu rosto.

Não há sorriso sincero.

Não há brilho no olhar.
Não há mais a beleza.

Olha mais uma vez !

Veja se é mesmo você.
Perdeu sua elegância.
Veste-se sem jeito.

Não há postura.

Não há altivez.
Não há mais auto-estima.

Olha bem lá no fundo !
Veja se você se reconhece.
Perdeu a alegria.
Vive uma farsa.

Não há generosidade.
Não há compaixão.
Não há verdade.

Agora, olha para o seu lado.

Veja com quem está.
Não se espelhe nisso.


segunda-feira, 7 de julho de 2014

A espera ausente...


"Mas se algum dia você não vier depois do café da manhã, se algum dia avistar você em algum espelho, talvez procurando por outro homem, se o telefone toca e toca em seu quarto vazio, então, depois de indizível agonia, então – pois não tem fim a loucura do coração humano – procurarei outro, encontrarei outro você. Nesse meio tempo, vamos abolir com um sopro o tiquetaque dos relógios. Chega mais perto de mim."

Virginia Woolf in As Ondas

A angústia...

"Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios." Graciliano Ramos in Angústia 



O rádio-relógio toca um longínquo clássico, aos poucos se aproxima retirando minha alma do espaço onírico, trazendo-me a relutante realidade. 

É Ravel ! Despertando-me às 7:00 horas. Estou tão cansada para interromper meu sono adiado há semanas. Mas, o bolero me prende ao leito em devaneios de um passado saudoso. Enquanto, o presente me batuca anseios de um samba canção na dor-de-cotovelo.

As nostálgicas lembranças me deprimem. Remetem-me as torturas da alma, na covardia dos atos rasteiros que me destruíram o espírito. Foi tão difícil conseguir juntar alguns dos pedaços e, mesmo assim, minha estrutura ainda está machucada, por feridas que insistem em não cicatrizar. 

Meu esgotamento físico é por conta da carga emocional pesada demais que leva-me a exaustão. A alcova está larga, sem limites que possam reter-me ao aconchego. Estou completamente só, sem proteção e cheia de temores. 

São 8:00 horas, encolho-me nas cobertas da fantasia de um acalanto nostálgico que embora nunca tive, sinto saudades. Enquanto isso, a vida corre lá fora e estou aqui sem forças para levantar. 

Penso, amanhã resolvo tudo, mas há prazos e obrigações que não podem ser adiadas. Mesmo, sendo minha felicidade adiada. Sou prisioneira da vida que foi-me furtada. 

Não vou levantar ! Desligo o telefone e mergulho na minha angústia. Caio em prantos. Estou paralisada pela impotência em enfrentar meus fracassos e recomeçar do zero. Adormeço para fugir de todo sofrimento que me esgota. 

Logo, perdi mais um dia de vida que evito viver.

O amor incondicional...

"Pratiquem a bondade, não criem sofrimento, dirijam a própria mente." Buda



Eu ficava remoendo minhas mágoas quando via o sofrimento do meu Filho, diante da negligência afetiva paterna. Tentava de todas as formas penetrar no seu âmago e arrancar àquela dor. Mas, não tinha como revertê-la somente para mim e livrá-lo disso. 

Chocava-me a mendicância de afeto dele e a falta de compaixão do Pai, cuja situação de não saber se colocar no lugar do outro era evidente, como sempre fez em relação à mim, mas com o próprio Filho era inaceitável.   

O tempo passara e por mais que eu tentasse amenizar as consequências da nossa separação traumática, com aproximação e perdão, as mentiras permaneciam e nosso Filho constatava a falência emocional e me culpava da passividade diante da crueldade do Pai. 

Embora, eu reforçasse sempre que a minha relação com o Pai dele era totalmente diferente da dele em relação ao mesmo, a sua interpretação era o que importava, eis que tinha o pior juízo do Pai justamente pelo abandono afetivo. Assim, não surtia mais efeito fantasiar uma boa relação filial paterna, quando o tratamento aos irmãos era diferenciado. 

Meu filho se sentia o "Patinho Feio" pela exclusão sentimental de um Pai que transferia à ele todo ódio de mim. 

domingo, 6 de julho de 2014

O reflexo no espelho...

"Se a mulher foi, muitas vezes, comparada à água, é entre outros motivos porque é o espelho em que o Narciso macho se contempla; debruça-se sobre ela de boa ou de má-fé. Mas o que, em todo caso, ele lhe pede é que seja fora dele tudo o que não pode apreender em si, pois a interioridade do existente não passa de nada e, para se atingir, ele precisa projetar-se em um objeto. A mulher é para ele a suprema recompensa porque é sob uma forma exterior que ele pode possuir, em sua carne, sua própria apoteose." Simone de Beauvoir in O Segundo Sexo



Eu estava tão reclusa mergulhada da minha solidão e me reconstruindo da separação que não tinha mais uma vida social. Já não recebia convites para festas, pois as pessoas acabam respeitando nosso ostracismo e passam a não contar com nossa presença na lista dos convidados.

Diante de um convite inusitado por um conhecido recente para acompanhá-lo à uma festa, despi-me da companhia do pijama, retirei o mofo do vestido e me arrumei para tal. Na última conferida ao espelho, vi-me cheia de vida, refletida como em tempos alegres. 

Era um encontro ao acaso, já que não conhecia ninguém, senão apenas um dos convidados que ao chegar lançou-me um largo sorriso. Bem como, outros tantos. Então, não contive a satisfação dos olhares admirados de vários homens pela minha presença.

Uma canção do poeta batucava na minha cabeça: 

"Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz
E atrás dessa mulher, mil homens, sempre tão gentis
Por isso, para o seu bem, ou tira ela da cabeça
Ou mereça a moça que você tem"

A solidão era uma escolha e a desilusão me transformava numa nova mulher, segura das minhas qualidades, com a certeza de que eu saía limpa de um relacionamento, em que a outra parte por insegurança não teve a capacidade de me dar afeto.

Lembro-me dele altivo, alegre e até sociável na liberdade que o proporcionava viver ao meu lado. Talvez, o reflexo vislumbrado em seu espelho inconsciente fosse incompatível com seus sentimentos mesquinhos. Na verdade, o ele queria era ser dominado e jamais conseguiu lidar com a minha personalidade livre, sem a deslealdade.

Hoje, seu reflexo no espelho é tão medíocre pela escolha insensata que perdera sua alegria, não há mais brilho em seu olhar. Vive agora, uma falsa relação, da qual o reflexo é turvo, cheio de impurezas. Portanto, cerceado de ser ele mesmo.